Estamos deprimidos porquê?

A depressão é uma perturbação comum, sendo que, aparentemente, Portugal é um dos países Europeus com maior prevalência. Com maior ou menor certeza dos números que nos apresentam, na verdade, a maioria de nós já a experienciou ou conhece alguém que tenha passado por estas dificuldades. A depressão é de tal forma comum, que a Organização Mundial de Saúde, estima que mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades sofram de depressão, sendo esta considerada uma causa importante de incapacidade na nossa sociedade. Face a estes dados, porque andamos deprimidos? Que fatores se encontram associados à depressão?

Primeiro, é importante esclarecer os principais sintomas associados a este problema: sentimentos de tristeza, irritabilidade, perda de prazer em atividades que antes eram prazerosas (hobbies, sexualidade, desporto, etc), alterações do sono (insónias ou excesso de sonolência), falta de energia/fadiga, alterações no apetite ou peso, ansiedade, dificuldades de concentração e memória, problemas físicos tais como dores musculares, dores de cabeça, ou dificuldades digestivas. Em casos mais graves pensamentos frequentes sobre a morte, pensamentos suicidas, tentativas de suicídio e suicídio.

Quando sentimos alguns destes sintomas é importante consultar um médico ou um psicólogo clínico de modo a ser definido o diagnóstico com acuidade. Isto porque, quanto mais cedo for realizada uma intervenção, maior a probabilidade de sucesso da mesma. Na verdade, é a combinação das intervenções médica e psicológica que levam aos melhores resultados. Isto quer dizer que os medicamentos podem não ser suficientes, e também que as intervenções psicológicas podem por si só não o ser; o que também significa que há pessoas que não gostam de recorrer aos fármacos, mas que isso pode ser realmente importante, tal como existem pessoas que gostariam apenas de recorrer aos fármacos, e que isso pode não ser a melhor solução.

O motivo desta confusão e dificuldade prende-se com a etiologia da depressão. A depressão parece ser determinada por fatores biológicos (por exemplo fatores genéticos, do funcionamento neuroendócrino, do funcionamento do sistema imunitário), por vulnerabilidades pessoais (ansiedade e stress, traços de personalidade, vulnerabilidade cognitiva), vulnerabilidades ambientais (luto, dificuldades económicas, dificuldades relacionais e divórcio) e por comorbilidades (isto é, pela presença de várias condições clínicas como por exemplo, perturbações de ansiedade, consumo de substâncias e alcoolismo, perturbações da personalidade).

A depressão é, portanto, um ponto de convergência de vários fatores (figura 1)

A depressão, por si só, confere um grau de sofrimento muito significativo para a pessoa. Contudo, é o comportamento adotado pela pessoa a sofrer desta condição, que a pode afetar em mais ampla escala. As pessoas que passam por depressão tendem a adotar estilos de vida pouco saudáveis: diminuição da prática de exercício físico, aumento do consumo de tabaco, má alimentação, descomprometimento com os tratamentos, comportamentos de pouco cuidado para consigo próprios. Estes comportamentos podem, consequentemente, levar a um agravamento da sua situação de vida, nomeadamente no plano relacional e social, e também à presença de outros problemas médicos, como por exemplo as doenças cardíacas, ou a diabetes.

A depressão é também um ponto de divergência para várias alterações (figura 2)

Tratamento da depressão

Em muitas situações, a pessoa que passa por uma depressão, apresenta, como sintoma, pouca disponibilidade/motivação para procurar ajuda. O papel do familiar é importante.

Como referido anteriormente, o tratamento da depressão deve ser realizado, em muitas situações pela combinação médica (Psiquiatria) e pelo Psicólogo (Psicologia Clínica ou Psicoterapia). Neste sentido é possível que o médico, pela sua especialidade, tenda a prescrever apenas farmacologia, e o Psicólogo, pela sua especialidade, tenda a não sugerir intervenção médica. Dependendo de cada caso depressivo, o médico ou o psicólogo, poderão dar uma resposta mais eficaz, embora em muitas situações seja a combinação de ambos que leva à resolução do problema.

Existem várias opções de tratamento que, isoladamente ou combinadas, tratam a depressão com eficácia.

A farmacologia e a psicoterapia são as formas mais usuais e dão boa resposta aos sintomas. A vantagem da farmacologia é a sua velocidade de ação, enquanto que a sua desvantagem é o carácter invasivo dos químicos administrados. Relativamente à psicoterapia, é de ação mais lenta, e consequentemente mais cara, mas é totalmente não invasiva e permite trabalhar as questões cognitivas, da personalidade e das emoções de uma forma profunda e com maiores vantagens a médio e longo prazo.

As novas intervenções

Nos últimos anos, têm vindo a ser desenvolvidas intervenções com resultados positivos na depressão. Dois desses exemplos são o Neurofeedback e a Estimulação Magnética Transcraniana. Ambas as terapias focam-se no funcionamento dos neurónios (cujo funcionamento se encontra relacionado com a depressão) e têm apresentado um suporte empírico interessante na redução dos sintomas. Ambas são rápidas (muito mais rápidas que as psicoterapias convencionais), e estão associadas a efeitos secundários muito ligeiros (muito menores que os fármacos). No caso do Neurofeedback, a técnica é totalmente não invasiva, circundando totalmente os efeitos adversos que estão muito presentes nas atuais farmacologias disponíveis (pese embora estas tenham evoluído significativamente nos últimos anos).

Autor: Hugo Daniel de Sousa, Neuropsicólogo Clínico